O pensamento Colonial e o Cemitério do Valongo

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Aqui nessas ruínas fica o Jardim suspenso do Valongo. Aqui foram enterrados indigentemente mais de 5000 escravos que não suportaram a viagem da África para o Brasil. O fato é tratado com tão pouca importância que nem o local é preservado. A tendência é que fique sempre esquecido...

Sempre tive a curiosidade de falar a respeito do Cemitério de Valongo. Ainda enquanto formando de história ouvi essa história pela primeira vez, o que bastou para me deixar bastante curioso...

A informação que obtive na época era de que, os navios negreiros, ao desembarcar no porto do Rio de Janeiro -Atual pça XV- desembarcavam ali mesmo as suas "mercadorias" para serem comecializadas. Os escravos que não resistiam as degradantes condições da viagens eram enterrados alí mesmo, próximo ao porto, ao redor da igreja de Santa Rita, na atual Av. Marechal Floriano.

Em 1769, o Marquês do Lavradio, Vice Rei na época, por causa do grande aumento do comércio de escravos, decide transferir o mercado e o cemitério para um local mais distante, pois a imagem degradante de negros acorrentados e sendo vendidos como animais, não seria um bom cartão postal para os estrangeiros que pisavam a nossa terra através da porta de entrada, o porto da pça XV.

Foram mais de seis mil sepultamentos em um espaço de mais ou menos seis anos.Todos eles registrados. A desumanidade não para por aí. O corpo dos escravos mortos eram marcados pelos traficantes, onde constavam o nome da pessoa que o trouxe, o nome do traficante, o nome do navio e sua origem ( dados investigados pelo historiador Júlio César Medeiros).

Reparem no requinte de crueldade e desumanidade que os cativos eram tratados. Esse cemitério foi descoberto recentemente pela empresária Mercedes Guimarães. Moradora da área, fazia uma obra no quintal de casa, quando os pedreiros acharam ossadas de escravos entulhadas. A descoberta constatou que esses corpos sequer eram enterrados e sim jogados em uma vala, e ali ficavam apodrecendo com o tempo.

Existe um escrito de 1779 de um dos advogados de possuidores de escravos que diz:"...Enterrar nas ruas por onde anda as pessoas e os animais, que desconhecimento de humanidade".

É comum nas aulas de história, alguns professores chamar a atenção para o fato de compreendermos melhor os acontecimentos , se nos despirmos da emoção e aceitarmos as ações de determinadas sociedades como parte de sua cultura, nos levando a crer que, por exemplo, esses algozes de escravos faziam o que achavam ser o certo naquela época.

Não é verdade. O que consigo enxergar é uma geração inteira agindo de forma desumana por conta dos interesses próprios, movimentados pelo desejo de lucro...Consigo visualizar uma geração hipócrita e sem escrúpulos...e acreditem: cristã!

A igreja que tanto fomentou a escravidão continua impune, e os seus fiéis iletrados sequer contestam sua participação no episódio. Os letrados conformam-se com as desculpas do Papa João Paulo : " A igreja hoje pede perdão pelo modo como tratou os índios e os escravos...". Será que é suficiente?

De que maneira podemos catalogar uma geração que escraviza seres humanos, tortura, mata e joga em um buraco qualquer....É difícil pensar o fato como cotidiano natural da época, por mais que tenhamos que adotar o pensamento parcial do historiador.

O mais intrigante é que as memórias dos algozes ainda prevalecem. Por que não se lembra os escravos mortos, enterrados no cemitério do Valongo, por exemplo, para que a população guarde para sempre ,como exemplo, o grande mal que a administração portuguesa trouxe ao Brasil?

É comum por exemplo que as crianças aprendam sobre as benfeitorias trazidas pela corte portuguesa ao Brasil. O que não é comum é dizer que os portugueses quando chegaram aqui dizimaram grande parte dos nossos índios, e que milhões de africanos foram arrancados da África para morrerem como escravos aqui no Brasil... Então, o que me importa as benfeitorias portuguesas no Brasil...Está na hora de recontarmos a nossa história

Fonte: www.reciclagemdivertida.com/gamboa.htm
Marcelo C Henrique

2 comentários:

Marcelo C.Henrique disse...

Bem profundo

Jonas Barbosa disse...

A maior vingança contra a opressão portuguesa ou da Igreja Católica que um jovem negro pode fazer é:
estudar muito, trabalhar muito, ficar rico, se destacar e, se conseguir, ser feliz.